O uso da inteligência artificial (IA) está se tornando uma constante nas discussões empresariais, especialmente nas reuniões de diretoria e nas metas de desempenho. No entanto, um estudo recente, denominado Panorama Mindset Digital, realizado pela consultoria Brivia Group, revela que o setor farmacêutico é o que mais se destaca em maturidade digital, enquanto o setor de saúde enfrenta desafios significativos. A pesquisa, que envolveu 350 empresas entre setembro de 2025 e março de 2026, apontou que o pilar de IA e Gestão Eficiente obteve a menor pontuação em comparação com outros setores da economia.
Resultados do Estudo e Maturidade Digital
O Panorama Mindset Digital atribui a cada empresa um Digital Maturity Score (DMS), que varia de 0 a 100, classificando-as em quatro estágios: Crítico, Sensibilização, Otimização e Excelência. Nesta edição, pela primeira vez, a pesquisa isolou o uso de inteligência artificial como um pilar próprio, o que facilitou a identificação de lacunas que antes não eram visíveis nos dados.
De acordo com Christiaan van Hattem, estrategista de marketing e negócios da Brivia Group, as empresas estão liberando o uso da IA sem um critério bem definido. Isso resulta em um investimento insustentável, pois a produtividade não melhora na mesma proporção. Um dos principais fatores que influenciam esse cenário é o custo elevado do consumo de tokens, que são as unidades que medem o processamento da IA. Quando a IA é utilizada de maneira generalizada, sem um foco específico, o custo aumenta sem que haja uma solução proporcional ao problema abordado.
Van Hattem sugere que as empresas devem adotar uma abordagem mais estratégica ao usar a IA. Em vez de tentar resolver problemas de forma generalista, é mais eficaz começar com questões menores e específicas, o que reduz o consumo de tokens e melhora a margem da empresa.
A Governança e a Complexidade do Setor de Saúde
Outro problema identificado na pesquisa é a falta de governança centralizada nas empresas. Van Hattem observa que, embora o uso da IA esteja presente, a governança não está bem estruturada, permanecendo nas mãos de colaboradores individuais, e não seguindo uma estratégia definida pela empresa.
Essa disparidade na aplicação da IA é ainda mais evidente quando se observa a diferença entre o setor farmacêutico e o setor de saúde. O setor farmacêutico lidera a classificação geral com 83 pontos, refletindo sua maturidade em uso analítico de dados e na definição de propósitos de marca. Em contraste, o setor de saúde, que inclui hospitais e laboratórios, obteve apenas 54 pontos, com um alarmante 22 pontos no pilar de IA, classificado como “Muito Crítico”. Essa diferença se deve à complexidade do atendimento ao paciente, que muitas vezes requer que o usuário repita seu histórico em diferentes canais, devido à falta de integração entre os sistemas hospitalares.
Regulamentação e Desafios da Adoção de IA
A situação do setor de saúde se torna ainda mais crítica com a recente publicação do Conselho Federal de Medicina, que introduziu uma resolução nacional regulando o uso de inteligência artificial na prática médica. A partir deste mês, as diretrizes visam padronizar a adoção de ferramentas de IA em hospitais e clínicas, evitando a dispersão de soluções isoladas.
Além disso, o estudo revela que há contradições nas percepções internas das empresas. Muitas afirmam ter marcas fortes e um bom conhecimento do cliente, mas não realizam pesquisas adequadas sobre o comportamento dos consumidores. Essas contradições indicam que a autoavaliação das empresas pode não refletir a realidade dos números.
Os Limites da Automação e Experiência do Cliente
A questão de até onde a IA pode substituir o contato humano sem comprometer a experiência do cliente é complexa. Van Hattem enfatiza que a decisão deve depender do contexto emocional da interação, e não apenas da tecnologia disponível. Por exemplo, para rastrear o status de um pedido online, a automação pode ser totalmente aceita. Contudo, em situações que exigem empatia e compreensão, como uma consulta médica, o contato humano é imprescindível.
Um exemplo dessa dinâmica é o recente uso de IA pela Coca-Cola em suas campanhas publicitárias, que geraram reações negativas dos consumidores. A percepção de que a marca havia “arruinado o Natal” reflete a importância do calor humano e da nostalgia em momentos significativos, que não podem ser substituídos por algoritmos.
Recomendações para Melhoria da Maturidade Digital
Com base nas conclusões do estudo, a Brivia Group propõe três frentes principais para que as empresas possam avançar em sua maturidade digital:
- Quebrar os “feudos de dados”: É vital que a informação utilizada para decisões não fique restrita a um único departamento.
- Cultivar uma cultura de teste e erro controlado: A criação de ambientes de testes (sandboxes) permite experimentações sem riscos significativos para a operação.
- Formar um comitê central de governança de IA: O foco deve ser em problemas específicos e mensuráveis, ao invés de aplicar soluções genéricas em toda a empresa.
Essas estratégias são fundamentais para que as empresas possam colher os frutos da inteligência artificial e evitar gastos excessivos que não resultem em melhorias significativas.
Nota de Responsabilidade:O Saúde com Inteligência é um portal informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação, diagnóstico ou acompanhamento de profissionais de saúde. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure orientação médica.












