O conceito de saúde digital abrange duas vertentes principais, uma que se relaciona à Saúde Coletiva e busca a proteção da vida, e outra que está voltada para o controle. A coleta e análise de grandes volumes de dados da população poderiam ser utilizadas em benefício da sociedade; no entanto, atualmente, isso tem contribuído para a acumulação de capital por parte das grandes empresas de tecnologia. É possível, então, mudar essa dinâmica?
O papel da Vigilância em Saúde
Sem uma vigilância adequada sobre aspectos como DNA, nascimentos, mortes, doenças, exposição ambiental, renda, moradia, mobilidade, condições de trabalho, raça, gênero e acesso aos serviços, o Sistema Único de Saúde (SUS) acaba perdendo a capacidade de identificar e intervir nas questões que mais necessitam de atenção. A atual dinâmica da ‘economia de dados’, impulsionada por plataformas digitais, big data, sensores e inteligência artificial, reconfigura as possibilidades de atuação do SUS.
Hoje, dispositivos como celulares e relógios inteligentes são capazes de registrar deslocamentos, frequência cardíaca e padrões de sono. Além disso, aplicativos de saúde e bem-estar acumulam dados pessoais que, quando combinados com informações de compras, geolocalização e interações digitais, permitem a criação de perfis detalhados sobre os indivíduos. Essa nova forma de ‘vigilância’ não se limita a um simples registro; as máquinas são agora capazes de interpretar, selecionar e articular dados, gerando inferências e predições sobre comportamentos e riscos.
A dualidade da Vigilância
A questão agora não é apenas se precisamos de mais dados, mas quem os coleta, com qual finalidade e sob quais limites. A vigilância, em seu sentido mais amplo, pode ser vista como uma prática tanto de proteção quanto de controle. O termo ‘vigilância’ deriva de ‘vigilantia’, que implica tanto uma atenção psíquica quanto uma prática organizada de observação. Nas Ciências Sociais, a vigilância é frequentemente associada à invasão de privacidade e à violação da intimidade, além de ser um espaço de controle e opressão.
No entanto, no contexto da Saúde Coletiva, a vigilância tem um significado diferente. As atividades relacionadas à vigilância epidemiológica, sanitária e ambiental são essenciais para a proteção da vida e a prevenção de doenças. A ampliação da capacidade do Estado de monitorar riscos, identificar desigualdades e antecipar surtos é um aspecto progressista e necessário para proteger populações vulneráveis.
Contrapontos na Vigilância
A contradição entre uma vigilância em saúde desejável e uma vigilância sobre a vida indesejável reflete a disputa por um sentido econômico, político e ético. Enquanto uma forma de vigilância pode promover a saúde e reduzir desigualdades, a outra pode transformar a vida cotidiana em mera matéria-prima para lucro e controle. Essa dinâmica é complexa e envolve interesses e projetos em conflito.
A era digital trouxe mudanças significativas na forma como os dados são coletados e utilizados. O conceito de ‘capitalismo de vigilância’, proposto por Shoshana Zuboff, descreve um regime onde a experiência humana é apropriada para a extração de dados e formação de previsões. Essa nova abordagem desloca a discussão da privacidade individual para a questão do poder político e as lutas de classes.
Desafios e Oportunidades
O atual avanço do poder computacional é uma das maiores conquistas da humanidade, mas, sob a lógica do capitalismo, essa força produtiva torna-se alienada e contrária à autonomia dos cidadãos. A saúde digital, nesse contexto, apresenta um desafio: como garantir que a coleta e análise de dados sejam utilizadas para o bem público e não para o lucro de oligopólios privados?
As ações de vigilância em saúde estão cada vez mais dependentes de ecossistemas digitais, que incluem prontuários eletrônicos, plataformas de telessaúde e dispositivos móveis, todos controlados por grandes empresas. Essa transição levanta questões sobre quem terá a autoridade para decidir sobre a saúde pública e como as informações serão utilizadas.
O futuro da Vigilância em Saúde
O debate sobre saúde digital não deve se restringir a questões técnicas ou jurídicas. É uma questão político-econômica que envolve a capacidade de produzir inteligência sobre fenômenos sanitários. A ampliação da coleta de dados pode fortalecer a pesquisa e as políticas de saúde, mas também pode intensificar a vigilância sobre a vida, uma vez que mais informações são registradas e analisadas.
Por isso, é fundamental que a vigilância em saúde da era digital esteja atrelada a finalidades públicas claras, a critérios de proporcionalidade e à participação democrática da população. O conflito entre vigilância em saúde e vigilância sobre a vida é, portanto, uma disputa que vai além do uso de tecnologias, englobando projetos de sociedade e de Estado.
Nota de Responsabilidade:O Saúde com Inteligência é um portal informativo e educacional. As informações apresentadas não substituem avaliação, diagnóstico ou acompanhamento de profissionais de saúde. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure orientação médica.












